terça-feira, 8 de outubro de 2013

Minha Doce Amélia

  -Será que o verei em breve?
  -Verá, meu amor, eu lhe prometo.
   Ver Amélia desolada naquele porto, me dizendo adeus com tamanha amargura, quebrava meu coração em tantos pedaços, que passariam a quantidade de gotas daquele imenso mar azul.
  -Levantem as velhas! O comandante do navio gritava, com tanta estupidez e arrogância, que eu me segurava, me controlava para não me atirar em cima dele, e fazê-lo sentir meus punhos em sua face.
   Lembro-me que Amélia sempre reclamava do meu jeito explosivo, brigão, e foi pensando nela que aguentei dias, meses nesse navio sujo, lutando por um pouco de dinheiro, para estar próxima de ser digno de tal moça.
  Quando eu podia ter uma pequena folga, no enorme navio de Jack Wolf, ia para uma parte isolada do navio para ver o amor, pensar em minha doce amada.
   Finalmente tive outra folga, olhava aquele mar, aquele imenso azul, como os olhos de Amélica, aquelas águas eram tão serenas, me trazia uma paz impossível de descrever, a paz que eu precisava para ter mais paciência, aguentar os conflitos que eu tinha com o comandante.
   E quando eu estava a voltar para o trabalho, como um ato de fúria, o céu escureceu, o mar começou a se agitar, as ondas que se formavam eram cada vez maiores, mais violentas, e naquele momento, senti medo, um medo que me paralisava ali.
  -Estamos sem os equipamentos necessários! Todos aos seus postos! Tempestade piorando! Jack gritou.
   O som estrondoso que os trovões faziam, me fazia estremecer, aquela gritaria toda, as ondas batendo contra o casco do navio, o céu cada vez mais escuto, tudo me deixava atordoado, sem condições de sair do lugar.
   Pensei na minha casa, em Amélia, Amélia dos lábios de mel, face rosada, e encantadores olhos, como eu queria vê-los agora, com seu jeito sereno, sentir aqueles cabelos negros como o céu que agora parecia mostrar a fúria de Zeus, sentir aqueles cabelos por entre meus dedos.
   Uma onda fortíssima nos acerta, e ninguém mais via o comandante, metade dos marujos foram ao mar, e o resto lutava por suas vidas.
  Resolvi assumir o comando, eu precisava dar o máximo de mim, e dei, naquela altura ninguém se opôs aos meus comandos, Richard e Benjamin cuidaram das velas, fui para a direção do navio Poseidon.
  Muitos marujos foram para a parte mais segura do Poseidon, mas as ondas se tornavam cada vez mais agitadas, violentas, nós não estávamos dando conta, e pensar que nossos esforços seriam em vão aumentava mais ainda o desespero.
  Já estávamos com a morte cara a cara, e de repente tudo ficou mais leve, mais claro, eu já não tinha noção de nada, senti um frio, meu corpo estava pesado.
  Quando estava quase apagando totalmente, vi Ben puxando meu braço, ele me puxou mais forte e então pude sentir areia em minhas costas, percebi que tínhamos sobrevivido, para em alguma ilha qualquer, estava finalmente em terra firme.
  Apaguei novamente, e quando acordei vi cinco marujos, posso chamá-los de meus marujos por ter sido comandante por pouco tempo? Seria muita pretensão minha? Paro para pensar, e me pergunto do resto dos marujos, possivelmente se perderam no mar, foram tomados por sua fúria e não aguentaram firme para ver sua calmaria nessa manhã.
  Uma tristeza me veio, Amélia novamente dançando, serena em minha mente, e também a imagem dos pobres marujos mortos.
  -Zeus! O que nós, pobres mortais fizemos para sofrer as consequências de sua ira? Por que, me diga, olhais com tamanha maldade para nós?! Devolva-os! Devolva os corpos daqueles infelizes que em terrível desespero foram tomados por ti, por teu irmão Poseidon, a quem homenageamos batizando nosso navio, naufragado navio com seu nome!
  De pouco em pouco, os corpos de nossos companheiros submergiram, fomos correndo tirá-los da água, e pudemos dar um enterro digno a cada um deles, nos despedir.
  Mesmo que distraído, perdido em meus tristes pensamentos, vi o corpo de Jack, sua face serena, sem o semblante arrogante, e em um instante senti uma lágrima cair vagarosamente de meus olhos. Pedi perdão a ele, e disse adeus.
  Agora eu só desejava voltar para casa, para minha Amélia, deitar em teu colo, sentir teu perfume de rosas, tão doce, e tão suave.
 -Estou voltando para ti, meu amor.

(Pamela Campos)
  


 
 

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